Há mais ou menos 18 anos ouvi o choro de uma menina. Choro de desespero e tristeza. Mas naquele sábado tinha programado andar de carrinho de ladeira (carrinho feito de madeira, inclusive as rodas, com espaço para apenas uma pessoa sentar e descer o cerro) para competir com um grupo de amigos, cada um com seu próprio carro feito à mão. Engraxávamos os iexos com banha de porco, coisa fina. Porém, aquele choro me comoveu a ponto de ir a busca da pessoa, eis que encontro um rostinho abalado, perdido e cheio de lágrimas. Os olhos azuis pediam socorro e a boca não paráva de soluçar. Após se acalmar me contou a história: a mãe da menina foi passear achando que a filha estava com o pai. Porém, o pai e o irmão mais velho foram pescar achando que a filha e irmã estava com a mãe. Ou seja, a menina estava sozinha e no seu ponto de vista: perdida e abandonada em casa.
Por desconfiar do local da pesca, a mais ou menos 4 quilômetros da casa, mato à dentro e cascatas perigosas, me alvitrei a procurá-los. No semblante da pequena a salvação. Dei a mão e fomos em busca de uma possível missão.
Após alguns minutos ela parou de soluçar porque em seu coração voltou a esperança de um reencontro. Enquanto caminhávamos nas trilhas do mato conversávamos, contávamos histórias, até que o problema maior surgiu ao nos depararmos num caminho com duas escolhas: ou voltar, ou descer uma cascata lisa de uns 40 metros de altura. Lá de cima avistáva-se pouca água no chão e muita pedra pontuda. Sugeri que ela montasse nas minhas costas e se segurasse com as duas mãos no meu peito. Ao descermos, suas mãos começaram a escorregar e trancar minha respiração. Quase caímos, mas serviu para tomarmos mais cuidado na seqüência. Após uns 15 minutos estávamos no caminho do riozinho e em pé no chão. Prosseguimos e quando, após 3 horas de caminhada, nos deparamos apenas com água, mato rasteiro e sem ninguém pescando no local onde imaginava que estivessem. Para deixá-la feliz, disse que estavam em casa e esperando por ela, quem sabe estivessem tomando chimarrão e contando piadas.
Voltamos pois, pelo mesmo caminho e chegávamos em casa umas 7 horas da tarde, já ameaçava escurescer. Meu maior temor era não encontrar ninguém da família dela em casa. Quando nos aproximamos do lar da pequena menina, pude participar de um reencontro emocionante. Os pais chamavam pela filha e vinham encontrá-la. Após fortes abraços, felicidades e lágrimas, me agradeceram por cuidar da pequena vizinha Daniela V. S., irmã de meu melhor amigo de infância.
1 - Ignorar a situação daquele sábado, seria o mais comum no dia-a-dia das pessoas.
2 - Não me machuquei descendo o morro, mas quase perdi a vida descendo a cachoeira.
3 - Arrisquei a vida por caridade e empatia prática (para você isso é burrice?)
4 - Um gesto pequeno pra você pode significar um marco eterno para o outro.
5 – E o mais importante é praticar e não só ficar no blablabla um mandamento simples: “Ame a teu próximo como a ti mesmo” – disse Ele.