Em um lugar afastado do lar, lá longe, há uns 2km a pé, no fundão da roça, bem distante: uma miragem. No meio de uma lavoura de inço, onde picões são afastados por paus para que os feijões sejam caçados e arrancados durante a época de colheita. Longe. Pés na terra e terra no rosto, suor escorrendo pelo sovaco empoeirado. Chapéu de palha para amenizar a temperatura dos 40º. 15:30 da tarde e a família reunida no meio dos picões em busca do alimento. Feijões que garantem sal, açúcar e outras mercadorias supérfluas como a farinha branca. Sofrido? Nada, a miragem é como um sonho. Porém, inacessível durante aquele período do dia. Vários fatores impedem o toque naquela maravilha. Os princípios, o calor, os pais e o cansaço aparente. Ou seja, aquela não é a hora.
Ainda de olho na miragem, meu irmão faz um sinal para que olhasse na direção do sol, e nas terras do vizinho esta a visão proibida. Então combinamos de, após o trabalho, após irmos para a casa à pé, após todo o dia cansativo e mãos esfoladas, voltaríamos para lá, lá longe onde avistamos a miragem.
Feito. Já escuro, no lugar e hora marcada... toc-toc, essa não. Toc-toc, sim, está boa. Toc-toc, pronta pro abate. Cada um de nós carrega duas melancias do vizinho para casa para serem saboreadas. Uma após uma é rachada a punho. Uma após uma está verde. Uma decepção após outra. A puteza toma conta.
20 anos após o acontecido, sei escolher sem erro uma boa melancia. Sei tb que os erros fortalecem as decisões futuras. Tb sei que todo sacrifício, por mais árduo que seja, é menos árduo qdo focamos num objetivo maior.