quarta-feira, 16 de junho de 2010

Escolhas

Em um lugar afastado do lar, lá longe, há uns 2km a pé, no fundão da roça, bem distante: uma miragem. No meio de uma lavoura de inço, onde picões são afastados por paus para que os feijões sejam caçados e arrancados durante a época de colheita. Longe. Pés na terra e terra no rosto, suor escorrendo pelo sovaco empoeirado. Chapéu de palha para amenizar a temperatura dos 40º. 15:30 da tarde e a família reunida no meio dos picões em busca do alimento. Feijões que garantem sal, açúcar e outras mercadorias supérfluas como a farinha branca. Sofrido? Nada, a miragem é como um sonho. Porém, inacessível durante aquele período do dia. Vários fatores impedem o toque naquela maravilha. Os princípios, o calor, os pais e o cansaço aparente. Ou seja, aquela não é a hora.

Ainda de olho na miragem, meu irmão faz um sinal para que olhasse na direção do sol, e nas terras do vizinho esta a visão proibida. Então combinamos de, após o trabalho, após irmos para a casa à pé, após todo o dia cansativo e mãos esfoladas, voltaríamos para lá, lá longe onde avistamos a miragem.

Feito. Já escuro, no lugar e hora marcada... toc-toc, essa não. Toc-toc, sim, está boa. Toc-toc, pronta pro abate. Cada um de nós carrega duas melancias do vizinho para casa para serem saboreadas. Uma após uma é rachada a punho. Uma após uma está verde. Uma decepção após outra. A puteza toma conta.

20 anos após o acontecido, sei escolher sem erro uma boa melancia. Sei tb que os erros fortalecem as decisões futuras. Tb sei que todo sacrifício, por mais árduo que seja, é menos árduo qdo focamos num objetivo maior.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Asfalto x chão batido

Rua de um, estrada de outro. Asfalto ou chão. Assim é a diferença entre a vida na cidade em relação à vida no interior. É contrastante e notável a diferença. Não é apenas o carro x carro de boi, nem a margarina x nata, nem leite longa vida x de vaca ou a diferença do domingo nos dois ambientes. Muito da diferença de um lugar para outro está no olhar sobre as coisas, no dia-a-dia, nos costumes, na cultura e principalmente, nos princípios.

É visível o mimo de uma criança da cidade em relação a uma da roça. Não que uma ou outra situação seja incorreta, é apenas diferente. Mas daí se tira uma observação geral importante: o valor. O que já não tem mais valor para uma criança na cidade, como uma boneca, por exemplo, é o melhor presente daquele ano ou da vida de uma menina do interior. Assim como um pão de milho é do cotidiano da vida de uma menina no interior, é especial para uma menina da cidade.

O valor que se dá para um par de havaianas de um lugar para o outro é incrivelmente diferente. Para um é necessidade, para outro é estética. Mas o legal de tudo isso é aprender com as diferenças somadas: a hospitalidade interiorana + dinamicidade da cidade, a paz + agito, a época + o tempo, o de milho + francês, a barra circular + a bike, da árvore + em conserva, rede + edredon, baile + balada, colheita + salário mensal, estrada de chão + asfalto. Viver nos dois ambientes é mais do que vida passada ou atual, é entender um pouco do outro, é entender melhor a vida e suas diferenças. É saber valorizar um pouco mais tudo o que Ele nos dá em nossas vidas.