quinta-feira, 1 de julho de 2010

Empatia prática

Há mais ou menos 18 anos ouvi o choro de uma menina. Choro de desespero e tristeza. Mas naquele sábado tinha programado andar de carrinho de ladeira (carrinho feito de madeira, inclusive as rodas, com espaço para apenas uma pessoa sentar e descer o cerro) para competir com um grupo de amigos, cada um com seu próprio carro feito à mão. Engraxávamos os iexos com banha de porco, coisa fina. Porém, aquele choro me comoveu a ponto de ir a busca da pessoa, eis que encontro um rostinho abalado, perdido e cheio de lágrimas. Os olhos azuis pediam socorro e a boca não paráva de soluçar. Após se acalmar me contou a história: a mãe da menina foi passear achando que a filha estava com o pai. Porém, o pai e o irmão mais velho foram pescar achando que a filha e irmã estava com a mãe. Ou seja, a menina estava sozinha e no seu ponto de vista: perdida e abandonada em casa.

Por desconfiar do local da pesca, a mais ou menos 4 quilômetros da casa, mato à dentro e cascatas perigosas, me alvitrei a procurá-los. No semblante da pequena a salvação. Dei a mão e fomos em busca de uma possível missão.

Após alguns minutos ela parou de soluçar porque em seu coração voltou a esperança de um reencontro. Enquanto caminhávamos nas trilhas do mato conversávamos, contávamos histórias, até que o problema maior surgiu ao nos depararmos num caminho com duas escolhas: ou voltar, ou descer uma cascata lisa de uns 40 metros de altura. Lá de cima avistáva-se pouca água no chão e muita pedra pontuda. Sugeri que ela montasse nas minhas costas e se segurasse com as duas mãos no meu peito. Ao descermos, suas mãos começaram a escorregar e trancar minha respiração. Quase caímos, mas serviu para tomarmos mais cuidado na seqüência. Após uns 15 minutos estávamos no caminho do riozinho e em pé no chão. Prosseguimos e quando, após 3 horas de caminhada, nos deparamos apenas com água, mato rasteiro e sem ninguém pescando no local onde imaginava que estivessem. Para deixá-la feliz, disse que estavam em casa e esperando por ela, quem sabe estivessem tomando chimarrão e contando piadas.

Voltamos pois, pelo mesmo caminho e chegávamos em casa umas 7 horas da tarde, já ameaçava escurescer. Meu maior temor era não encontrar ninguém da família dela em casa. Quando nos aproximamos do lar da pequena menina, pude participar de um reencontro emocionante. Os pais chamavam pela filha e vinham encontrá-la. Após fortes abraços, felicidades e lágrimas, me agradeceram por cuidar da pequena vizinha Daniela V. S., irmã de meu melhor amigo de infância.

1 - Ignorar a situação daquele sábado, seria o mais comum no dia-a-dia das pessoas.

2 - Não me machuquei descendo o morro, mas quase perdi a vida descendo a cachoeira.

3 - Arrisquei a vida por caridade e empatia prática (para você isso é burrice?)

4 - Um gesto pequeno pra você pode significar um marco eterno para o outro.

5 – E o mais importante é praticar e não só ficar no blablabla um mandamento simples: “Ame a teu próximo como a ti mesmo” – disse Ele.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Escolhas

Em um lugar afastado do lar, lá longe, há uns 2km a pé, no fundão da roça, bem distante: uma miragem. No meio de uma lavoura de inço, onde picões são afastados por paus para que os feijões sejam caçados e arrancados durante a época de colheita. Longe. Pés na terra e terra no rosto, suor escorrendo pelo sovaco empoeirado. Chapéu de palha para amenizar a temperatura dos 40º. 15:30 da tarde e a família reunida no meio dos picões em busca do alimento. Feijões que garantem sal, açúcar e outras mercadorias supérfluas como a farinha branca. Sofrido? Nada, a miragem é como um sonho. Porém, inacessível durante aquele período do dia. Vários fatores impedem o toque naquela maravilha. Os princípios, o calor, os pais e o cansaço aparente. Ou seja, aquela não é a hora.

Ainda de olho na miragem, meu irmão faz um sinal para que olhasse na direção do sol, e nas terras do vizinho esta a visão proibida. Então combinamos de, após o trabalho, após irmos para a casa à pé, após todo o dia cansativo e mãos esfoladas, voltaríamos para lá, lá longe onde avistamos a miragem.

Feito. Já escuro, no lugar e hora marcada... toc-toc, essa não. Toc-toc, sim, está boa. Toc-toc, pronta pro abate. Cada um de nós carrega duas melancias do vizinho para casa para serem saboreadas. Uma após uma é rachada a punho. Uma após uma está verde. Uma decepção após outra. A puteza toma conta.

20 anos após o acontecido, sei escolher sem erro uma boa melancia. Sei tb que os erros fortalecem as decisões futuras. Tb sei que todo sacrifício, por mais árduo que seja, é menos árduo qdo focamos num objetivo maior.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Asfalto x chão batido

Rua de um, estrada de outro. Asfalto ou chão. Assim é a diferença entre a vida na cidade em relação à vida no interior. É contrastante e notável a diferença. Não é apenas o carro x carro de boi, nem a margarina x nata, nem leite longa vida x de vaca ou a diferença do domingo nos dois ambientes. Muito da diferença de um lugar para outro está no olhar sobre as coisas, no dia-a-dia, nos costumes, na cultura e principalmente, nos princípios.

É visível o mimo de uma criança da cidade em relação a uma da roça. Não que uma ou outra situação seja incorreta, é apenas diferente. Mas daí se tira uma observação geral importante: o valor. O que já não tem mais valor para uma criança na cidade, como uma boneca, por exemplo, é o melhor presente daquele ano ou da vida de uma menina do interior. Assim como um pão de milho é do cotidiano da vida de uma menina no interior, é especial para uma menina da cidade.

O valor que se dá para um par de havaianas de um lugar para o outro é incrivelmente diferente. Para um é necessidade, para outro é estética. Mas o legal de tudo isso é aprender com as diferenças somadas: a hospitalidade interiorana + dinamicidade da cidade, a paz + agito, a época + o tempo, o de milho + francês, a barra circular + a bike, da árvore + em conserva, rede + edredon, baile + balada, colheita + salário mensal, estrada de chão + asfalto. Viver nos dois ambientes é mais do que vida passada ou atual, é entender um pouco do outro, é entender melhor a vida e suas diferenças. É saber valorizar um pouco mais tudo o que Ele nos dá em nossas vidas.